Funcionário do mês

[ CRÔNICAS, CONTOS, POESIA CONCRETA ] [ ILUSTRAÇÕES ] [ FOTOGRAFIAS ] [ VÍDEOS ]
Eu moro sozinho num factoide abandonado, pensando vez ou outra ''que seja etéreo enquanto dure!''.
Nos meus delírios, decoro as paredes das suas coxas com minhas entonações faciais.
Minha língua risca sua virilha como a agulha de uma vitrola tocando um vinil venéreo, chupo seus coloquialismos sem me importar com os chapiscos. Descubro que és feita de chá de flor.
Meus dois dedos fincados querem te discotecar. Mordo com vontade seu antebraço, como um pintor que assinala a obra no cantinho do quadro.
Nas manchetes mofadas dessa manhã: ''Errar é humano. Corrigir o erro é sobre-humano.''
Sobre humanos: Há pessoas que ficam (n)à vontade com a falta de (a)deus no coração.



Juan Barto





O homem branco
de terno branco
sorriso branco
dono do banco
curtindo um banzo
com vinho branco
dando uma salva
de 'tiros' brancos
pra celebrar a cor da paz.




Juan Barto
O cidadão cálido e calado ornamenta suas dores como quem costura com cuidado as lantejoulas de uma fantasia de carnaval.
Preenche seus furos com piercings, seus poros com tintas, seus cortes com band aids estampados. Nada destampado! Nenhuma ferida pode ficar descoberta se não, azeda!
Talento é a manutenção do dom, e a arte ajuda a cicatrizar essa majestosa má gestão que as vezes a vida demonstra ser.



Juan Barto




O tempo é uma lesma escalando lentamente uma montanha.
O tempo é uma lesma descendo veloz a ribanceira, de trenó.
Deixando pra trás um rastro de cola de sapateiro, que gruda as cordas vocais umas nas outras, melecando as paredes da garganta.
Deixando tudo 'mute' (lado).

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No churrasco da vida, a linguiça do sucesso
torrada por fora e crua por dentro.

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''Conectado, mas sem carregar'' é um estado de espírito.
Branco é a ausência de todas as cores.
Brando é a ausência de todas as dores.



Juan Barto




Tentando ser grande como um móvel precisa ser, se quiser esconder direito tantos fios emaranhados
e evitar o embaraço do dono da sala, mas só eu sei das minhas desistências abortadas.
A treta me espreita na street estreita. Troco de traje, de trejeito, de trajeto e não tem jeito, não dá certo.
Vou passando pela vida despercebido como o sotaque da mão de um mudo, como um liquid paper derramando no ártico ou qualquer coisa caindo no índico.




Juan Barto


O Brasil é um chique chiqueiro de acrílico simulando vidro, dividido em ministérios e monastérios.
O homem-porco aglutinado, deglutindo seu próprio glúteo.
Auto engordando essa linguíça de merda crua e quente que um dia vai ser servida com farofa feita com a areia escondida nas dobras das barras das calças, de todas as vezes que se foi à praia sem vontade nenhuma de ter ido e ainda trouxe pra casa.
O mundo todo é o poço, o poço todo é o fundo.



Juan Barto






A EPILEPSIA DO NERVO

Um terço das ruas tem nome de índios, que odeiam a cidade.
Um terço dos bairros tem nome de políticos, que odeiam o cidadão.
Com o tempo, o detento (por bom comportamento) diminui sua pena.
Com o tempo, o homem livre (por mau comportamento) diminui sua pena...pelos outros.
O policial forte, e mente armada, cochila no gelado do ar condicionado de uma hilux, que já foi caríssima e hoje em dia é apenas cara, enquanto há poucos quarteirões dali, um vigia noturno leva tiro na cabeça à temperatura ambiente de forma natural.
O cassetete de madeira caiu em cima da poça de sangue vermelho vivo do morto e escorreu de lado, rolando uns dois metros, xilografando a cara da sociedade com o blush que ela mais gosta.
Passando vergonha artificial na cara de pau pra sair na foto do jornal.
A vida é uma quimer(d)a!



Juan Barto

Tem saudade que é que nem uma naja, cuspindo veneno direto nos teus olhos.
Tem saudade que é que nem uma sucuri, te espremendo até quebrar todos os ossos, pra depois te engolir inteiro.
Tem saudade que é que nem uma cascavel, avisa que está chegando para te dar a oportunidade de fugir ou de se preparar para o confronto.
Tem saudade que é que nem uma coral, as vezes não dá tempo de saber se é da peçonhenta ou não.
Tem saudade que é que nem uma jiboia, tem quem goste e até crie em casa.
Vive ostentando para os amigos, carregando-a mansamente acomodada nos ombros.
Cobras?
Cobro!

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De tanto orquestrar trovões, você começa a perceber o contraste entre os contraltos.
Percebe também que a diferença entre o 'grave' e o 'muito grave' é o groove.



Juan Barto
Cada beijo, uma colherada.
Cada colherada, uma molécula de vício.
Cada vício, uma parcela de culpa.
Cada culpa, uma pitada de 'quero'.
Cada 'quero', uma dose de 'já!'
Te cativo em cativeiro, te mantenho embaixo da língua pra te proteger dos meus próprios dentes.
Os cabelos compridos, perto do preto, caídos em calda perto do prato.
A pele dela tem algo (dão)..




Juan Barto
Não existe lobo mau,
existe lobo com fome.
Primeiro, que não é pessoal,
e segundo, que 'criança' é só um nome
colocado nos pedaços menores de carne
pelo bicho 'homem'.



Juan Barto

Mas se és
maciez, sou à favor da união entre pessoas do mesmo nexo no ócio e no cio.
Faça que nem as camisetas e deixe as etiquetas para trás.
Morando na mesma cidade, o vento que passa pelo rosto da pessoa que você tem interesse haverá de passar pelo seu mais cedo ou mais tarde, causando erosão nos seus planos de carreira solo até virar uma ferida querida chamada 'gostar', que faz o coração bater de mão fechada, deixando tudo roxo por dentro, e atrair dentes, mísseis teleguiados com sensor de calor, deixando todo roxo por fora.
Resistir, ao invés de esclarecer era justamente o que deixava tudo escuro, como uma daquelas borrachas bicolores vagabundas, onde o lado vermelho borrava o que estava escrito e o azul enfraquecia e rasgava o papel.



Juan Barto







Os prédios ao longe, repousando lado a lado como roupas estendidas no varal da linha do horizonte, formavam um curioso atol de construções postadas como um time de futebol posando para o poster. Exibindo seus sorrisos de micro janelas, se acendendo pra quem passa.
O bairro visto daqui parece um tabuleiro de xadrez de proporções monstruosas.
Enquanto isso, nas entranhas, chovem suicidas no telhado lajeado dos que moram
debaixo da ponte.
Na vida existem dois tipos de decisões erradas: há a decisão errada do tipo ‘cortar o cabelo’ (que são aquelas que se der merda, quando passar um tempo você tem a chance de consertar) e tem a decisão errada do tipo ‘cortar a perna’ (que é auto explicativa).



Juan Barto

DE ROCHA

Eu já fui lá no Bessa, que é longe a beça, tentar 'tirar a cara', mas não achei nada!
Já fui na Mangabeira do precipício atrás de uma 'parada' e bati na porta errada.
Minha sorte transparente, minha sorte já na 'baga'.
A viatura 'torou minha lombra' logo na entrada
do Beco das galinhas e 'embaçou' em Cruz das armas.
Por causa de um 'pega' a polícia te pega,
te dá um 'baculejo', te algema e te leva.
Será que devolve?
Eles tem teu nome
eles tem revólver!
O preço de um 'beck' pela hora da morte, e uma hora dessas, é certo que no Rena uma belota já tá a preço de 'dóla'.
A galera é foda, se imprensa na roda
dinheiro que é bom, ninguém colabora.
Uma 'livrança' até que rola, só não pode toda hora.
O nome disso é 'cola'.
Sem onda, sem 'intera', nem choro e nem vela, nem 'fino' e nem 'chára'.
'Na vera''véi'? 'Na paula' um 'prensado' mal chapa, num instante acaba e quando acaba só tem casa.
Bancários só tem casa, no Altiplano só tem casa.
Na Torre e no Castelo só tem bar e só tem casa.
Manaíra só tem doce, Manaíra só tem pose.
No Centro é só loló e no Timbó só tem pó.
Pode crer . . . pode crer . . . pode crer . . .  pode crer.
'De baixa', JP!
Pode crer . . .
'De rocha!'
Pode crer . . .
Pode crer . . .


Juan Barto
Paixão é um (trans)tornado que passa fustigando tudo, arrancando as nuvens pela raiz, fazendo barulho de velcro, descosturando as coisas do chão e as destroçando crocantes em pleno ar.
Ao contrário do que muitos pensam, amor  não é o que a gente reconstrói com os escombros, mas, sim, a decisão de reconstruir.




Juan Barto