Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Ultimamente, os dias fedem a rabujo.
Com a ponta do dedo, escrevo "murro" no vidro sujo.
Trinco, ainda que semanticamente, a janela enquanto remendo com graxa o escuro.



Juan Barto







[Noites gélidas] 

O frio descasca nossos poros como se fossem micro dentes de alho.
Antes de dormir, a cabeça da gente adoça tanto certas lembranças que elas acabam virando edemas de açúcar. 


[Manhãs glaciais] 

O frio não tem preguiça de desenterrar e extrair as pessoas do mundo dos mornos.
Só acordou de verdade quando o metal resfriado da armação dos óculos tocou seu rosto e ardeu. Lembrou que no sonho, obturavam seu destino.
Sobre o criado mudo ao lado da cama, uma xícara cheia até a cintura com café grosso, semi enrijecido.
Presenciou, através da janela do quarto, o exato momento em que uma folha se desprendeu do galho, espreguiçou-se e decolou elegantemente pelo firmamento, esverdeando seu campo de visão.
Parecia que a árvore tinha parido um passarinho.





Juan Barto