Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Eu sempre acreditei que as pessoas que achavam xadrez um jogo muito difícil se referiam a ter que decorar os movimentos sonsos das peças, as muitas regras, a parte mecânica da dança...
Na verdade, a resposta é um pouco mais existencialista do que mundana; ainda que inconscientemente, é considerado difícil por ser uma atividade onde não há o menor espaço para bodes expiatórios.
No xadrez não tem essa história de receber uma "mão" pior do que a do seu adversário.
No xadrez, cem porcento das suas derrotas foram, são e serão oriundas exclusivamente dos caminhos errados que você mesmo escolheu tomar, acreditando ser o certo a fazer.
Arcar sozinho com as consequências de suas próprias decisões equivocadas é o fantasma que assombra o juízo do ser humano dia após dia desde o seu primeiro segundo de lucidez, porque ele adicionaria esse elemento à tabela do entretenimento? Logo uma das coisas mais brutais que se pode exigir de uma pessoa: que no fracasso, ela assuma sua responsabilidade em caso de ser a responsável.
Isto posto, faz sentido a preferência popular por jogar baralho, um campo cheio de vírgulas morais.
O baralho dá brecha para ases escondidos nas mangas, cartas sutilmente marcadas nas pontas e o principal, o segundo maior alívio depois de  ganhar: poder terceirizar a culpa.
 "Espiaram deslealmente meu leque de naipes pelo reflexo dos óculos!"



Juan Barto